Ao menos dois prefeitos foram assassinados no Brasil em 16 dias. O empresário João Gregório Neto, conhecido como João do Povo, morto no último dia (24/12), véspera de natal, em Granjeiro-CE, e João Schwambach, morto a tiros, na noite do dia (08/01) de janeiro, ao deixar a sede do Executivo local, em Imbuia-SC. No caso do Ceará, a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS), anunciou na última quinta-feira, (09/01), que o atual prefeito do município, Ticiano Tomé, e seu pai, Vicente Félix de Souza, são suspeitos de envolvimento. O crime levanta discussão a respeito da violência no campo político Estadual.

O presidente da Associação dos Municípios do Estado do Ceará (Aprece) e prefeito de Cedro, Nilson Diniz (PDT), diz que o assassinato de João do Povo foi uma "surpresa". O gestor acredita que a política surgiu como um canal para o debate democrático, que substitui ataques do gênero e o uso da violência física. No caso de Granjeiro, a Aprece fez uma solicitação direta ao governo do Estado, cobrando uma resposta mais rápida. Segundo Diniz, o fato do crime ter ocorrido no final do ano, entre o período de natal e ano novo, poderia afetar a celeridade das investigações. "Sabíamos que nesse período de recesso é como se o Brasil não funcionasse. Então, corremos junto ao governo para reforçar a importância de se fazer as diligências rapidamente. Felizmente as autoridades tiveram o mesmo pensamento e atuaram prontamente", explica.

O gestor alega que o caso deixa uma "sensação ruim" na política estadual, mas acredita tratar-se de um fato isolado e fora do contexto geral. Ele avalia que as eleições de 2020 não devem ser prejudicadas. "Acredito que seja algo mais local, talvez pela proximidade dos membros. A convivência mais próxima pode fazer com que as divergências tornem-se mais pessoais", afirma.

Sobre a relação entre prefeito e vice, Nilson acredita que é importante que haja uma sintonia. Para ele, o caso de Granjeiro não produzirá uma tensão capaz de mudar a dinâmica das relações políticas no Estado. "Nas conversas com os prefeitos não vi a possibilidade de alguém repensar a escolha de um vice, por exemplo. O que ocorre é uma preocupação com as próprias eleições, a maioria dos prefeitos está orientando seus secretários e pessoal para não cometer irregularidades ou gafes durante o ano eleitoral", finaliza.

A respeito da violência na política do Ceará, Monalisa Soares, professora vinculada ao Laboratório de Estudos de Política, Eleições e Mídias da Universidade Federal do Ceará (Lepem-UFC), ressalta que o assassinato do prefeito de Granjeiro não é um caso inédito ou incomum no interior do Estado. Para a pesquisadora, o crime deixa marcas no município, mas não deve afetar o Estado. "A dinâmica da política municipal é diferente da estadual e da nacional. No interior, o uso de violência na política torna-se mais comum porque, de certo modo, reflete mais a dinâmica das disputas e relações interpessoais. A política local não é de indivíduos, é de grupos", afirma, explicando que em nível municipal, há regiões onde a influência dos partidos é menor do que a de famílias tradicionais.

A professora explica que entre as décadas de 1960 e 1980, casos de pistolagem eram mais comuns e faziam parte da realidade política local, mas que com o passar do tempo essa lógica arrefeceu. Monalisa alerta que atualmente a violência no interior é menos tolerada e pode gerar um ônus para os grupos envolvidos, afetando o julgamento da população em períodos eleitorais. "O povo se sente no direito de saber o que aconteceu, porque está mais próximo daquele fato. A violência pode distanciar a população do grupo político responsável e de seus aliados, que também são postos em xeque", conclui. Sobre um possível retorno de crimes como o ocorrido em Granjeiro, ela avalia que, por se tratar do primeiro caso que reaparece, é preciso esperar antes de tratá-lo como exceção.

Outras formas de violência

Entre 2007 e 2018, pelo menos 99 políticos foram assassinados em todo o Brasil. Destes, 85 eram vereadores, maior classe política do país, de acordo com levantamento realizado pela agência de checagem Aos Fatos. Para João Augusto Goes Mota (PSD), presidente da União dos Vereadores e Câmaras do Ceará (UVC) e vereador eleito pelo município de Tejuçuoca, a violência contra políticos precisa ser coibida e as punições para os infratores, mais duras. Ele acredita que os cidadãos precisam estar unidos no combate a esse tipo de situação. "No meu município, sou vereador de oposição. Lá nós temos nossos debates mais acalorados como é comum na política, mas ficamos nisso; no campo das ideias. Quando se parte para o lado pessoal ou para a violência física, a política perde todo o sentido", afirma.

O parlamentar atribui o alto índice de assassinatos de vereadores à quantidade de membros dessa categoria. Nas eleições de 2016, foram eleitos, ao todo, 57.736 vereadores pelo País. "No Ceará, a UVC representa cerca de dois mil vereadores. Como nós somos a maior classe política do Brasil e temos representantes de diversos níveis da sociedade, acaba ficando mais suscetível a acontecer". Mota espera que casos como o do prefeito de Granjeiro sirvam de alerta para a sociedade e que a população reflita e analise melhor a escolha de seus representantes.

Para o professor Francisco Uribam Xavier de Holanda, do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Ceará (UFC), a questão é muito mais ampla do que os casos de eliminação da vida, é um problema social. Ele destaca que ao falarmos de violência na política é preciso focar no macro e acredita que o assassinato em Granjeiro aparece como uma exceção. "Atualmente, a maior violência na política se dá por meio de discursos. Discursos que desrespeitam minorias e que relativizam o próprio uso da violência como resposta às divergências", afirma, enfatizando que atitudes como essas legitimam o pensamento de grupos interessados em impor suas convicções de forma não democrática.

Outro ponto abordado por Uribam trata da forma como a sociedade encara crimes de corrupção. Para ele, a violência "silenciosa" que influencia na vida das pessoas é mais recorrente e perigosa. "Geralmente, tratamos a corrupção como se fosse apenas uma falha moral, mas os crimes de corrupção também são de natureza violenta. Porque no fim das contas, é um dos fatores que influencia na violência do cotidiano. O cara que desvia verbas públicas, tira, além do dinheiro, a oportunidade de pessoas que mais tarde podem estar nas ruas praticando crimes", conclui. 

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