Não é de hoje que o mundo inteiro está mais gordo e que muitas pessoas buscam todo tipo de recurso para emagrecer — seja por meio de dietas da moda, de reeducação alimentar, com ajuda de remédios ou até mesmo por meio de uma cirurgia. No ano passado, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estimou que 1,9 bilhão de adultos no mundo estavam com sobrepeso — com o índice de massa corporal (IMC), que avalia o peso da pessoa em relação à altura, entre 25 e 30. Destes, 600 milhões estão obesos (IMC maior do que 30). No Brasil, a situação também assusta: 57% da população adulta está acima do peso e, nos últimos 35 anos, a prevalência de obesidade subiu de 5,4% para 21% dos habitantes, segundo os dados mais recentes da Pesquisa Nacional de Saúde, realizada pelo Ministério da Saúde e publicada em 2015. Especialistas atribuem esse aumento do sobrepeso a mudanças no padrão alimentar das pessoas, que nos últimos 40 anos trocaram a comida natural pela industrializada e ultraprocessada, rica em sódio e gorduras saturadas adicionados para que ela dure mais. Soma-se a isso o aumento do sedentarismo — as pessoas não andam mais como antigamente e são poucas as que se exercitam com regularidade. Estudo realizado em 2017 pelo Centro de Pesquisa em Obesidade e Comorbidades (OCRC) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) em camundongos apontou que a alteração no padrão alimentar tem consequência direta na região cerebral que regula a fome: a alta ingestão de gordura saturada gera uma inflamação no hipotálamo, descontrolando a sensação de saciedade. A pesquisa demonstrou, porém, que o problema pode ser revertido, caso a pessoa volte a se alimentar adequadamente. “A obesidade é um problema mundial e não exclusivo do Brasil. Saímos da época em que a desnutrição era o mais preocupante e chegamos ao extremo oposto: hoje nosso maior problema é o excesso de peso. E isso tudo aconteceu por um conjunto de fatores, entre eles, essa mudança no padrão de alimentação e menor prática de exercícios”, explica a médica endocrinologista Maria Edna de Melo, presidente da Associação Brasileira para Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso). “E importante: não existe obesidade saudável.” Na busca de um instrumento que ajude os pacientes na perda de peso, desde julho do ano passado a endocrinologista Andrea Samara Audi está realizando uma pesquisa no Departamento de Obesidade do Hospital das Clinicas de São Paulo para avaliar a eficácia do uso de um aplicativo (FatSecret) como auxiliar no emagrecimento de adolescentes obesos. Ao todo, sessenta jovens entre 13 e 17 anos serão acompanhados por seis meses — metade deles vai seguir uma dieta tradicional e fazer um diário das ingestões em papel e a outra metade seguirá a mesma dieta, mas as informações de consumo serão incluídas no aplicativo. Até agora, a médica só avaliou metade da amostra, mas, extraoficialmente, já consegue observar benefícios maiores em quem usa aplicativo. “O que tenho observado é que o resultado é bem individual. Mas, quem usa o aplicativo corretamente consegue enxergar no fim do mês onde foi que errou, o que comeu a mais que interferiu no resultado. O aplicativo é uma ferramenta ótima de apoio”, explica. A principal diferença, diz, é que diferente do papel, o aplicativo apresenta as calorias ingeridas e as quantidades de gordura e carboidrato. “Ele calcula metas e ajuda o paciente”, afirma Audi. A grande dificuldade de quem quer emagrecer é evitar o famoso efeito sanfona — aquele emagrece e engorda, sem conseguir manter o peso adequado por muito tempo. Existe explicação científica para isso. Segundo Melo, após a perda de peso, ocorre um mecanismo fisiológico e hormonal em que o próprio organismo busca repor as calorias perdidas, como se fosse se proteger. “O corpo vai se defender dessa perda de gordura. O hormônio da fome (grelina), por exemplo, fica mais alto quanto mais a pessoa emagrece. Esse é um fenômeno fisiológico muito forte e complexo”, explica a endocrinologista. Outra coisa que acontece no corpo de quem perde peso é uma menor sensibilidade ao hormônio leptina, responsável pela sensação de saciedade. “Assim, quanto mais perde peso, menos a pessoa se sente saciada. O organismo faz de tudo para ‘sobreviver’”, explica o nutrólogo Durval Ribas Filho, presidente da Associação Brasileira de Nutrologia (Abran). Até hoje a ciência não descobriu um gene que estivesse ligado ao aumento de peso e à obesidade. Não significa, entretanto, que a genética não esteja envolvida no ganho de peso. O que se sabe é que as pessoas respondem de formas diferentes à mesma dieta — para alguns, funciona a de baixo teor de gorduras, para outros, a que corta carboidratos ou mesmo o jejum por horas ininterruptas — e que restringir parte da alimentação é sempre a primeira opção de quem quer perder os quilos extras. Segundo Ribas Filho, a maioria dos estudos mostram que diferentes dietas produzem os mesmos resultados — sem diferenças significativas na perda de peso, desde que a ingestão calórica seja igual ao se comparar uma com a outra. De acordo com Melo, entre 10% e 20% das pessoas que precisam perder peso conseguem fazê-lo apenas com mudanças no estilo de vida, sem auxílio de remédios ou da cirurgia. Porém, disciplina para o resto da vida, mas em especial nos cinco primeiros anos após a perda dos quilos, é o segredo para manter o peso. “A evidência científica é que qualquer pessoa que fizer uma dieta hipocalórica vai perder peso. E que, em dois a quatro anos recuperou 80% do peso. E em cinco anos, 100% ou mais do peso se não fizer a manutenção adequada”, diz Ribas Filho. Para manter-se no peso, é preciso seguir regras bem básicas: tomar café da manhã; aumentar a ingestão de frutas e vegetais; praticar atividade física regularmente e monitorar o peso frequentemente. Para quem quer perder peso, recomenda-se 70% de exercícios aeróbicos e 30% de musculação. Já para manter-se no peso, a orientação é praticar 70% de musculação e 30% de exercícios aeróbicos. “A musculação ajuda a criar massa magra e aumenta o gasto energético”, diz Ribas Filho. “A tendência é recuperar o peso perdido ao longo dos anos. Mas, seguindo essas regras à risca, é possível manter o corpo desejado”, afirma Melo.

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