Repórter: 'Tá' rolando o que aí?

Segurança: Aqui é um puteiro, uma boate.

Repórter: E como é que é o sistema aí?

Segurança: A entrada é grátis, não paga nada, 20 minutos é R$50, meia hora é R$80. Pode dar uma olhadinha na casa, não paga nada.

Repórter: Vou olhar lá.

Entramos nesse e em dezenas de outros lugares muito parecidos com esse. Do lado de fora luminosos, bexigas, números grandes e até imagens de mulheres seminuas indicam claramente o que acontece ali dentro. Não tem disfarce.

No Sabará Club, na zona sul, um dos sócios, Mário, conta que paga propina para policiais do 99º DP, onde funciona a Delegacia da Mulher - a mesma que investigou a denúncia de estupro contra Neymar -, e também para a Delegacia Seccional da região. Sem saber que estava sendo gravado, ele diz que evita envolver a polícia em qualquer problema, resolve dentro da casa.

Mário: Nunca eu levo problema pra delegacia, pra distrito nenhum.

Repórter: Porque eles não podem dizer que não sabem que aqui funciona...

Mário: É claro! Eles pegam. Tem que pegar a mensalidade. É igual jogo, a mesma coisa.

Repórter: A mensalidade é alta?

Mário: Tem que dar um café para os caras, se não... Nada funciona na ilegalidade sem ter conversa com alguém.

Ele diz que quem distribui a propina é um advogado que atende diversos prostíbulos, Leandro Vidotto, que justamente por isso é chamado entre os cafetões de 'associação'.

Mário: Eles se viram lá, eu tenho uma associação, eu pago lá no centro, eu não sei quem é quem, quem é delegado...

Repórter: Como assim uma associação?

Mário: É um advogado que ele conhece essa galera toda, daí ele resolve por telefone, vamos supor 'ah, deu um problema aqui'. Aí ele vai chegar pra conversar porque não vai preso do nada, não é brinquedo não a coisa. É negócio sério, é uma organização.

Mário mostra, então, o boleto de pagamento do escritório do advogado Leandro Vidotto.

Repórter: Vidotto...

Mário: Isso, é conhecido em tudo quanto é lugar de São Paulo.

Na prefeitura de São Paulo também há vista grossa para que os prostíbulos se espalhem. Prova disso é que, em março deste ano, a regional de Pinheiros tinha montado uma operação para lacrar os estabelecimentos que também estavam servindo de depósito de bebidas para ambulantes. No dia, os fiscais faltaram. Depois, até a reunião convocada para remarcar a ação também teve boicote.

Em agosto de 2017, a então prefeita regional de Santana, bairro da Zona Norte da capital, tomou a iniciativa e emparedou com blocos de concreto sete prostíbulos na região. Delegada de polícia, Rosmary Corrêa deixou o cargo em fevereiro e foi remanejada para outra área da prefeitura. Ao lado de onde funcionavam os prostíbulos lacrados, hoje existem outros cinco.

"Eu acho que falta apenas boa vontade e querer fazer com que a lei seja cumprida. Você nem precisa investigar muito porque funcionam às claras. Todo mundo sabe onde tem. Então o que nós precisamos pra que essas coisas aconteçam? Uma fiscalização mais rígida, todo o procedimento administrativo de interdição. Descumpriu a interdição: emparedar", diz.

A prostituição não é crime. No Brasil, quem recebe ou paga por sexo não vai para a cadeia. Mas são crimes: tirar proveito da prostituição participando dos lucros, manter um local para essa atividade e atrair pessoas para fazerem programas. Somados, eles podem render de 5 a 14 anos de cadeia, com explica o jurista Guilherme Nucci.

"Hipoteticamente seriam três crimes, mas hoje o que a gente vê é que esses três crimes não existem na prática. Essa é a verdade. As autoridades ignoram completamente, a sociedade também não está cobrando... Nunca vi ninguém cobrar falar: 'cadê a punição, pra aquele que agencia?'. Tem até outdoor hoje em dia", diz ele.

Em nota, a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo informou que prendeu neste ano dois criminosos que mantinham casas de prostituição e que as informações da reportagem serão analisadas, inclusive, pela corregedoria da instituição.

A Secretaria Municipal das Subprefeituras de São Paulo alega que não tem conhecimento e repudia qualquer boicote a operações de fiscalização de prostíbulos, como mostrou a reportagem. Eles ainda defendem que a competência do órgão é averiguar a licença de funcionamento e dar apoio à Polícia e ao Ministério Público em operações como as que determinaram o fechamento de cerca de 30 prostíbulos na cidade desde 2017.

O advogado Leandro Vidotto disse desconhecer o conteúdo da conversa e não saber do que se tratam os relatos de propina feitos pela reportagem.

No capítulo de amanhã: o valor da propina e os truques dos cafetões para o recrutamento de menores de idade para a prostituição.

Zero Hora News (A informação que faz a diferença) com informações CBN